sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Transição Capilar

Um dia desses vi um compartilhamento de um discurso  de Lupita Nyong’o, a ganhadora do Oscar 2014, na premiação do Black Women in Hollywood.O discurso me emocionou muito no qual em algumas parte dele ela dizia como ela sentia quando era uma crDiscurso Lupita Nyong'oiança e era exatamente como eu também me sentia...

"Minha única prece para Deus, o milagreiro, era acordar com a pele clara. O dia amanheceria, eu estaria tão empolgada que me recusaria a me olhar até estar em frente a um espelho e ver pela primeira vez meu rosto claro. E todos os dias eu experimentava o mesmo desapontamento de ser tão negra como era no dia anterior. Tentei negociar com Deus: disse que pararia de roubar cubos de açúcar à noite se ele me desse o que eu queria; escutaria todas as palavras da minha mãe e nunca mais perderia meu moleton novamente se ele me fizesse um pouco mais clara. Mas acho que Deus não se impressionou com minhas barganhas porque Ele nunca me escutou."
Eu também pedia a Deus que ouvisse minhas preces queria muito poder acordar de um dia para o outro e ser uma menina branca com cabelo liso e de preferencia de olhos azuis. Mas claro isso nunca aconteceu...meu cabelo ñ ficaria liso. Eu não teria o cabelo escorrido igual minhas amigas, modelos e atrizes das novelas. E desejando cada vez mais tudo isso pra mim.
Passei minha infância ouvindo coisas ridículas, nojentas e racistas do quão ruim era o meu cabelo ''volumoso'', do trabalho que dava para pentear. É claro que quando era criança eu não tinha nenhuma noção do que era racismo e nem de nada, o que as pessoas me diziam eu acreditava, a minha auto estima foi jogada no chão. 
Alisei meu cabelo ainda criança, minha mãe não sabia lidar com meu cabelo e também não tinha muito tempo então entrei na ditadura do cabelo liso. E aprendi que meu cabelo estava fora do ''padrão''. Me lembro de como foi a sensação de ter o cabelo no lugar, da reação das 'amigas' e professoras da escola, me sentia preenchida. 
Mas, antes de completar 3 meses meu cabelo já estava com aspecto feio, a chapinha já não mais adiantava. A raiz aparecia! Ela sempre aparecia, e eu odiava, quase corria pra retocar, era uma batalha contra mim mesma. Eu negava minhas raízes o meu eu. 
Foi quando vi alguns videos no youtube de meninas na transição(TRANSIÇÃO CAPILAR – Termo usado para quem quer voltar ao cabelo natural após algum processo de mudança na sua estrutura.  Geralmente do cacheado para o liso.), via a felicidade no rosto delas ao ter seus cabelos crespos e cacheados novamente. Precisava essa sentir essa felicidade também, não queria ter que passar alisantes fedidos na minha cabeça, queria ter orgulho do meu cabelo e parar de alisa-lo. Eu cansei do meu cabelo liso e espigado...
Comecei um longo processo de aceitar a ideia de que eu precisaria  desfazer do meu cabelo.  entrei na transição em dezembro do ano passado e fiquei até março sem alisar, mas o que eu não sabia é o quão difícil isso seria, em abril alisei de novo até julho. Foi quando minha amiga (Anna), me apresentou o movimento negro e falava da  a Hellen Lobanov de uma forma que acabei me envolvendo e querendo saber cada vez mais sobre. 
Estou de transição faz pouco tempo, continua não sendo fácil mas eu tenho a certeza dentro de mim do quanto eu quero me conhecer, do como eu me amo por ser quem eu sou, de ser como eu sou, estou passando por esse processo com tranças que é uma maneira que encontrei para fugir da chapinha,não tenho dúvidas que foi uma das melhores decisões que fiz... 

                                  Discurso  de Lupita Nyong’o







                                                                                                   










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